
Nesta sexta - feira dia 10 de agosto tomou posse a nova presidente da UNE ( União Nacional dos Estudantes) a gaúcha lúcia Stumpf, em seu discurso de posse a estudante de jornalismo promete radicalizar e fazer varias manifestações e invasões de reitorias, o site
http://www.zedirceu.com.br/, fez uma entrevista exclusiva com a estudante, leia na integra essa entrevista aqui no pedroitalocs.blogsopt.com, " o blog da juventude consciente"
Pergunta - Qual vai ser a bandeira da atual diretoria para os próximos dois anos?
Lúcia - Nosso maior desafio é conseguir envolver o conjunto da rede do movimento estudantil nas lutas a pela transformação do Brasil, pela transformação da universidade brasileira. Ter uma gestão mais ousada, que faça mais manifestações, mais passeatas, mais mobilizações dos estudantes para conseguir transformar o Brasil e a universidade. A gente acha que a UNE está num patamar de organização, num momento de força grande, representada pela participação dos estudantes no 50º Conune (Congresso Nacional da UNE), que conseguiu mobilizar mais de 2/3 dos estudantes universitários do Brasil e, com isso a gente tem condições de ousar mais nesse próximo período, de radicalizar mais nas lutas e fazer mais passeatas pela transformação do Brasil e da universidade.
Pergunta - A UNE tem sido criticada por ser pouco crítica ao atual governo. Essa gestão vai ser mais combativa?
Lúcia - Não reconheço essa crítica, não concordo, mas acho que esta gestão tem, sim, mais disposição de construir as lutas necessárias, seja frente ao governo federal ou outros poderes para que a gente consiga obter as vitórias que dizem respeito, por exemplo, a garantia de um Plano Nacional de Assistência Estudantil, para os estudantes que fazem universidade pública. Isso exige, no mínimo, R$ 200 milhões a mais no orçamento do MEC para a construção de moradias, restaurantes universitários, bolsa auxílio transporte para estudantes carentes, e também reivindicar a criação de um conjunto de leis que regulamente o funcionamento das universidades privadas, que hoje mandam e desmandam conforme seu próprio interesse, aumentam as mensalidades, como bem entendem, não permitem a organização do movimento estudantil dentro das instituições. Então, a UNE vai bater forte para que se crie um conjunto de leis para regulamentar o funcionamento das universidades, daí radicalizar mais a nossa intervenção. Outra frente é em relação a política econômica do atual governo que, na nossa visão, é a principal culpada pela falta ou pela ausência de mais investimentos nas áreas sociais. A gente acredita que, com a manutenção dessa política de juros altos e superávit primário não vai ser possível fazer as transformações que a UNE defende na universidade brasileira
.Pergunta - E qual é a principal transformação que vocês defendem na universidade brasileira?
Lúcia - Primeiro é a regulamentação da universidade privada, que vai representar um grande avanço no sistema de ensino superior do Brasil, porque hoje 70% das matrículas estão concentradas no sistema privado. São 4,7 milhões de estudantes universitários e 70% deles em universidades privadas. Então, a gente acredita que existem instituições privadas que, hoje, não têm qualquer tipo de compromisso com o desenvolvimento brasileiro. Abrem cursos de direito, de administração, porque são baratos e não exigem investimentos em laboratórios, exigem pouca infra-estrutura das universidades. E há ausência de profissionais formados em áreas estratégicas para o país, como, por exemplo, agronomia e outros setores que ajudem a desenvolver novas potencialidades que o país tem. Não existe uma regulamentação estabelecendo que o curso que vai ser aberto em determinada cidade tem que corresponder as demandas daquela cidade. Vai ser um grande avanço para a transformação do ensino brasileiro e mais investimentos na universidade pública, para que ela possa cumprir seu papel, de desenvolver pesquisas, conhecimento que ajude a transformar o Brasil num país mais desenvolvido.
Pergunta - Como foi a participação da UNE no movimento da USP? Como a entidade recebeu o decreto do governador José Serra, posteriormente revogado, que acabava com a autonomia das universidades?
Lúcia - A ocupação da reitoria da USP foi uma resposta a altura do movimento estudantil daquela entidade aos ataques que o governador José Serra implementou contra as universidades estaduais paulistas. Aquele decreto, de fato, feria a autonomia das universidades e o movimento estudantil reagiu a altura, fazendo o que achou necessário, e o governador teve que rever o decreto. Foi uma atitude muito justa e legítima do movimento estudantil.
Pergunta - Ainda na questão da USP, o movimento estudantil, de acordo com as notícias publicadas à época, depredou a reitoria e teria levado micros da universidade. Qual a versão de vocês, como isso repercute na imagem do movimento estudantil?
Lúcia - Eu acredito que a decisão política de ocupar a reitoria para exigir a revisão do decreto foi uma postura vitoriosa e que merece ser reconhecida por isso. Já os problemas que aconteceram, de depredação do patrimônio, enfim, eu acredito que são questões menores, de indivíduos que estavam ali e que, talvez, não estivessem comprometidos com essa luta maior, coletiva, mas que se aproveitaram daquele espaço, daquele momento para fazer ações individuais, às quais, acredito, não representam o conjunto do movimento estudantil que estava presente naquela ocupação. Apoiamos o conjunto das reivindicações, a forma como a luta foi desenvolvida, mas essas ações individuais, localizadas, a UNE repudia, e entende que não representam o conjunto dos interesses dos estudantes que estavam fazendo aquele protesto legítimo.
Pergunta - Qual a avaliação da UNE do PAC educação?
Lúcia - O PDE é uma iniciativa positiva, porque entende que, para discutir a universidade, precisa discutir desde o ensino médio e fundamental, a valorização dos professores como ali está proposto, a questão de mais investimentos no ensino médio e fundamental através da aprovação do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica). A universidade brasileira só vai poder ter sua qualidade plenamente desenvolvida no momento em que a gente conseguir rever a aplicação do dinheiro público no ensino médio e fundamental. No que diz respeito a universidade, o PDE (Programa de Desenvolvimento da Educação) tem algumas iniciativas interessantes, que estão sendo ainda avaliadas pelo movimento estudantil. Mas o que a gente tem convicção é que o PDE vai ser um mero objeto de discurso do governo, caso não seja alterada a política econômica implementada até hoje pelo governo Lula, porque várias das ações ali propostas hoje não têm recursos específicos no governo para serem implementadas. O PDE não prevê um real a mais para o sistema educacional brasileiro, além do que já estava sendo proposto. O Fundeb, colocado dentro do PDE, já estava tramitando no Congresso. O que falta no PDE é a garantia de mais investimentos na educação pública brasileira e isso a gente acha que só vai ser alcançado com a mudança da política econômica implementada pelo governo Lula.
Pergunta - Que mudanças vocês pregam na política econômica?
Lúcia - A gente quer, por exemplo, o fim dos juros altos. O Brasil é um país com os juros mais altos de todo mundo, e juros altos impedem o crescimento da economia nacional e valorizam quem investe no capital especulativo financeiro, em detrimento dos que investem no capital que desenvolve o país, capaz de transformar realidade do nosso Brasil, gerando mais empregos, por exemplo. A política, hoje, prevê um superávit primário, que é uma reserva que deveria estar sendo utilizada para mais investimentos nas áreas sociais , ao invés de estar sendo reservada para pagamento dos juros.
Pergunta - Supondo que não haja mudança na política econômica, na prática, de que forma vocês pretendem obter essas conquistas? O movimento estudantil vai voltar a ocupar as ruas? Qual o caminho que será seguido?
Lúcia - O caminho que a UNE conhece, de lutas, de reivindicação, é a mobilização do conjunto de estudantes e da universidade brasileira. Essa sempre foi a nossa forma de diálogo com os governos e com a sociedade, e é isso que a gente vai fazer, cada vez com mais constância nessa gestão. Vamos, já no final de agosto (semana de 20 a 24), fazer uma jornada nacional de lutas pela educação, que vai exigir o Plano Nacional de Assistência Estudantil e vai exigir a regulamentação das universidades privadas, em que a gente vai parar todas as capitais do Brasil com uma grande passeata. Vamos ocupar reitorias, ocupar universidades brasileiras, exigindo do governo esse plano e uma postura mais firme frente aos tubarões do ensino das universidades privadas. E é dessa forma que a gente vai agir ao longo dessa gestão (...). As manifestações vão acontecer com mais freqüência, até que agente alcance as vitórias que o movimento estudantil reivindica. E, antes da semana de paralisação, vamos fazer, dia 10 no Rio uma passeata, parte das comemorações dos 70 anos da UNE, e, dia 11, em São Paulo, queremos reunir os movimentos populares e sindicatos no evento de comemoração do aniversário da UNE.
Pergunta - Qual a avaliação do Prouni?
Lúcia - A UNE reivindica que o programa tenha suas vagas dobradas. Pela primeira vez, com o Prouni, pessoas de baixa renda, que não conseguiriam ingressar na universidade pública porque não passam pelo funil do vestibular, e que não conseguem ingressar na universidade privada por falta de condições financeiras, hoje estão na universidade graças ao Prouni. Então, primeiro, a luta é para dobrar o número de estudantes atendidos pelo programa. Ao mesmo tempo, a gente faz algumas críticas ao programa, como por exemplo, a escolha e a avaliação das universidades que poderão conceder essas bolsas. A UNE exige que essas bolsas sejam oferecidas por universidades que tenham sua qualidade comprovada, que não é o que acontece hoje, diversas universidades particulares que não têm seu desempenho aprovado pelo Enad (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) podem oferecer bolsas pro Prouni, a gente quer que isso acabe e que só as universidades que passem na avaliação do ensino superior, com boas notas, possam oferecer esse programa de bolsas do governo.
Pergunta - Nas décadas de 70 e 80, havia uma aliança do movimento popular com as universidades, que favorecia a ambos. Com a globalização e as universidades muito focadas em capacitação profissional, pesquisa corporativa, a impressão que se tem é que isso se rompeu. Ao mesmo tempo a democratização da gestão dentro das universidades avançou pouco. Você concorda com essa análise? A UNE vai buscar uma reaproximação com o movimento popular?
Lúcia - Sem dúvida. A gente tem garantido, cada vez mais, um diálogo forte e permanente com um conjunto de movimentos sociais brasileiros. Eu mesma, quando era diretora da UNE na gestão anterior, era responsável por esse diálogo com o movimento sindical, com movimentos populares, e sendo eleita presidente, vou ter a responsabilidade de aprofundar isso cada vez mais, acreditando que os objetivos do conjunto dos movimentos sociais brasileiros é um só, que é a construção de um Brasil com melhor distribuição de renda, um Brasil mais justo para o conjunto da sociedade, soberano e desenvolvido frente ao conjunto de nações do mundo. Se apoiar nesse conjunto de movimentos sociais é um dos objetivos dessa gestão, na perspectiva de construir um Brasil diferente para a nossa geração e para as gerações futuras.